A passagem do Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, reacende em Carazinho a reflexão sobre como a infância e os sonhos se transformam ao longo das gerações. A história da moradora Roselene Brescovit e de seu filho Victor ilustra essa mudança no bairro Conceição.
Na infância, Roselene tinha uma certeza: queria ser professora. Ela conta que alfabetizava as crianças da rua durante as brincadeiras, quando assumia o papel de educadora. “Muita gente ia entrar na escola lendo e escrevendo”, recorda.
A vivência de Roselene no bairro Conceição reflete um modelo de convivência comunitária em que as ruas funcionavam como principal espaço de socialização. As tardes de pular elástico, pega-pega e esconde-esconde ocorriam sob a observação dos pais, que se reuniam nas calçadas para tomar chimarrão. Em datas como o Dia das Crianças, os moradores chegavam a fechar a rua para organizar atividades coletivas, prática que hoje se tornou inviável diante das preocupações com segurança e mobilidade urbana.
Décadas depois, Roselene observa uma realidade distinta na infância do filho. As telas — celulares, videogames e televisão — passaram a disputar a atenção das crianças, alterando a rotina e as formas de brincar.
Para ela, a principal diferença está na convivência. Roselene avalia que as brincadeiras coletivas de sua época ajudavam a desenvolver amizades, respeito e a capacidade de lidar com situações do cotidiano.
A preocupação com a segurança também modificou a relação das famílias com os espaços públicos. Segundo Roselene, o receio de acidentes e de situações de violência limita atualmente a liberdade das crianças, ao contrário do que ocorria quando os pais conheciam os vizinhos e acompanhavam os filhos de perto.
Victor gosta de futebol e de brincar com os amigos, mas também utiliza recursos digitais. Roselene procura acompanhar essas atividades, especialmente quando envolvem interações pela internet.
Apesar das diferenças, algumas brincadeiras permanecem. Durante a entrevista, Victor contou que gosta de jogar bola, brincar de pega-pega e de esconde-esconde. Questionado sobre a preferência entre as brincadeiras tradicionais e o videogame, escolheu o pega-pega.
O desejo de ser professora acompanhou Roselene durante boa parte da juventude. Ela cursou magistério e chegou a estudar licenciatura, mas a experiência em sala de aula fez com que reconsiderasse a escolha profissional. “Não consegui realizar o sonho de ser professora”, conta. A mudança de planos, no entanto, não significou abandonar a vontade de realizar.