Passo Fundo já contabiliza duas mil ocorrências policiais de agressões contra mulheres neste ano, entre casos de violência física, psicológica e patrimonial. O número foi divulgado pela delegada Rafaela Bier, titular da Delegacia da Mulher, durante o programa Sem Segredo, da Rádio Uirapuru, que debateu o enfrentamento à violência de gênero no município.
O programa contou com a participação da coordenadora do Projur Mulher e Diversidade, Josiane Petry Faria, da presidente da Comissão da Mulher da OAB, Taciane Modler, e da pesquisadora Marielle Lisboa. Os dados apresentados reforçam a dimensão do problema na região.
O debate ocorre em um momento de recorde histórico de medidas protetivas no país. Somente em 2026, foram expedidos 337 mil pedidos no Brasil. No Rio Grande do Sul, o ano de 2025 registrou quase 70 mil deferimentos, número superior à população de Carazinho, que tem 61 mil habitantes.
Josiane Petry Faria destacou a importância das denúncias para a prevenção de feminicídios. “Conseguimos evitar quantos feminicídios a partir das denúncias?”, questionou. Ela também observou que o aumento nos registros reflete uma mudança de comportamento: “As mulheres estão muito mais corajosas para denunciar seus maridos ou companheiros do que antes”.
Apesar dos avanços, o estado registrou 80 feminicídios no ano passado, sendo que quatro dessas vítimas não possuíam medidas protetivas. O dado reforça a necessidade de ampliar o acesso à justiça e a prevenção.
A Lei Maria da Penha, que completa duas décadas em 2026, passou por atualizações relevantes. Uma delas, segundo Josiane, foi a decisão do STF que ampliou a concessão de medidas protetivas para todos os casos de violência de gênero, independentemente do vínculo com o agressor. “Uma mulher que sofre importunação sexual de um desconhecido na rua pode solicitar a medida sem precisar provar vínculo algum”, explicou.
Taciane Modler citou o reconhecimento da violência vicária, que ocorre quando o agressor utiliza os filhos ou pessoas próximas para praticar violência. “É uma atualização muito importante porque amplia o alcance das medidas protetivas”, afirmou.
Passo Fundo conta com estrutura de acolhimento que inclui delegacia especializada, juizado de violência doméstica, Patrulha Maria da Penha e casa de acolhimento. Taciane ressaltou que a violência é progressiva e pode chegar ao feminicídio. “Costumamos dizer que o feminicídio é uma morte anunciada”, alertou.