Dados de modelos climáticos divulgados no início de novembro apontam para uma tendência de El Niño com características semelhantes às observadas em 1982-1983, episódio que resultou em graves enchentes no Sul do Brasil. A análise é de meteorologistas que acompanham a evolução das temperaturas da superfície do mar no Pacífico.
O padrão identificado reproduz uma configuração oceânica específica daquele período, quando o aquecimento das águas equatoriais centrais e o registro junto à costa da América do Sul apresentaram evoluções distintas ao longo do fenômeno.
No Super El Niño de 1982-1983, o aquecimento das águas do Pacífico equatorial central e o verificado junto à costa da América do Sul tiveram comportamentos diferentes. Enquanto o fenômeno perdia força na região central do oceano, as águas próximas ao Peru e ao Equador continuavam a aquecer e atingiram seu maior pico quando o El Niño de grande escala já estava em processo avançado de dissipação.
Os registros históricos de temperatura da superfície do mar mostram que o aquecimento costeiro teve dois picos distintos, sendo o segundo mais intenso que o primeiro. O caso é apontado como exemplo de como o El Niño Costeiro pode apresentar evolução própria, com intensidade e duração que não necessariamente acompanham o comportamento do fenômeno no Pacífico equatorial central.
Na região Niño 3.4, referência para monitorar El Niño e La Niña, o aquecimento começou a ganhar força em maio de 1982. A anomalia da temperatura da superfície do mar, que estava em 0,8°C naquele mês, aumentou progressivamente durante o segundo semestre. Em outubro, alcançava 2°C e chegou a 2,6°C na semana de 29 de dezembro de 1982, maior valor da série semanal apresentada.
O aquecimento permaneceu intenso no início de 1983, com anomalias superiores a 2°C em janeiro e fevereiro. A partir daí, houve rápida redução. No final de abril, a anomalia na região Niño 3.4 já havia recuado para 0,7°C. Em junho, estava praticamente neutra, com 0,1°C na última semana do mês. Em julho, os registros passaram a apresentar anomalias negativas, chegando a -0,6°C na semana de 20 de julho.
O comportamento foi diferente na região Niño 1+2, que compreende o Pacífico oriental próximo à costa do Peru e do Equador, onde se dá o El Niño Costeiro. Nesta área, o aquecimento apresentou evolução com dois máximos bem definidos. O primeiro pico ocorreu em dezembro de 1982, quando a anomalia chegou a 3,2°C na semana de 22 de dezembro. Nas semanas seguintes, houve redução, com valores recuando para aproximadamente 2,1°C em fevereiro de 1983. A partir de março, as águas voltaram a aquecer de maneira expressiva, com intensificação particularmente rápida.