A morte do atacante Jesús de Miguel, do Tenerife, na manhã desta terça-feira (3), após uma colisão durante uma partida de futebol, acendeu um alerta sobre uma condição cardíaca rara e potencialmente fatal: a commotio cordis. O jogador sofreu uma parada cardíaca depois de um impacto no tórax, chegou a ser reanimado em campo, mas não resistiu após apresentar piora no quadro clínico.
A principal suspeita levantada por especialistas é que o atleta tenha sofrido uma alteração elétrica no coração provocada pela pancada. A condição pode atingir até mesmo pessoas jovens, saudáveis e sem histórico de doenças cardiovasculares. Ainda não há confirmação oficial de que a commotio cordis tenha sido a causa da morte.
O termo commotio cordis tem origem no latim e pode ser traduzido como uma perturbação do coração. Trata-se de uma condição rara que ocorre quando um impacto direto no tórax provoca uma alteração no funcionamento elétrico do coração. Segundo a American Heart Association, uma pancada no peito, mesmo sem provocar fraturas ou lesões externas aparentes, pode desencadear uma arritmia grave e levar à parada cardíaca.
O cardiologista Antonio Carlos Avanza, presidente do Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), explica que a intensidade do impacto não é o único fator determinante. O risco está relacionado ao momento em que a pancada acontece durante o ciclo dos batimentos cardíacos. Se o golpe atingir o tórax em uma fase específica da atividade elétrica do coração, pode provocar uma arritmia potencialmente fatal. Por isso, uma joelhada, uma bolada ou uma colisão aparentemente não tão intensa também podem desencadear o problema.
O coração funciona por meio de impulsos elétricos que coordenam os batimentos e permitem o bombeamento de sangue para o organismo. Na commotio cordis, o impacto pode desorganizar essa atividade elétrica e provocar uma arritmia grave, como a fibrilação ventricular. Nessa situação, o coração perde a capacidade de bombear sangue de maneira eficiente. Sem circulação sanguínea adequada, órgãos como o cérebro deixam de receber oxigênio, o que pode provocar danos em poucos minutos.
A condição não exige que a pessoa tenha alguma doença cardíaca anterior. Por isso, atletas jovens e aparentemente saudáveis também podem estar sujeitos ao problema. Quando ocorre uma parada cardíaca, o tempo de resposta das equipes de emergência é decisivo para as chances de sobrevivência. A realização imediata de manobras de reanimação cardiopulmonar (RCP) e o uso de um desfibrilador externo automático (DEA), quando disponível, podem ajudar a restabelecer o ritmo cardíaco.
O cardiologista Antonio Carlos Avanza alerta que a falta de circulação sanguínea compromete rapidamente o funcionamento do cérebro. Durante uma parada cardíaca, o sangue deixa de transportar oxigênio adequadamente para os tecidos. Essa condição é chamada de hipóxia e pode provocar lesões nas células nervosas. Como o cérebro é particularmente sensível à falta de oxigênio, o atraso no atendimento aumenta o risco de sequelas neurológicas permanentes e morte. No caso de Jesús de Miguel, o jogador recebeu atendimento ainda no campo e foi encaminhado ao hospital.